sábado, 18 de abril de 2009

ENTENDENDO O RIO - PAULO COELHO NO G1.


Hoje (15 de abril) estou lançando, sem nenhuma publicidade, um livro com textos publicados neste blog e em colunas de jornais e revistas. Seu título, “Ser como um rio que flui” (Editora Agir), é inspirado em um poema de Manuel Bandeira.
“Um rio nunca passa duas vezes pelo mesmo lugar” diz um filósofo. “A vida é como um rio”, diz outro filósofo, e chegamos à conclusão que esta é a metáfora mais próxima do significado da vida. Por conseqüência, é sempre bom lembrar durante todo o tempo::
A] Sempre estamos diante da primeira vez. Enquanto nos movimentamos entre a nossa nascente (o nascimento) e o nosso destino (morte), as paisagens serão sempre novas. Devemos encarar todas estas novidades com alegria, e não com medo – porque é inútil temer o que não se pode evitar. Um rio não deixa de correr jamais.
B] Em um vale, andamos mais devagar. Quando tudo à nossa volta fica mais fácil, as águas se acalmam, nos tornamos mais amplos, mais largos, mais generosos.
C] Nossas margens sempre são férteis. A vegetação só nasce onde existe água. Quem entra em contato conosco, precisa entender que estamos ali para dar de beber a quem tem sede.
D] As pedras precisam ser contornadas. Evidente que a água é mais forte que o granito, mas para isso é preciso tempo. Não adianta deixar-se dominar por obstáculos mais fortes, ou tentar bater-se contra eles; gastaremos energia à toa. O melhor é entender por onde se encontra a saída, e seguir adiante.
E] As depressões necessitam paciência. De repente o rio entra em uma espécie de buraco, e para de correr com a alegria de antes. Nestes momentos, a única maneira de sair é contar com a ajuda do tempo. Quando chegar o momento certo, a depressão se enche, e a água pode seguir adiante. No lugar do buraco feio e sem vida, agora existe um lago que outros podem contemplar com alegria.
F] Somos únicos. Nascemos em um lugar que estava destinado para nós, que nos manterá sempre alimentados de água o suficiente para que, diante de obstáculos ou depressões, possamos ter a paciência ou a força necessária para seguir adiante. Começamos nosso curso de maneira suave, frágil, onde até mesmo uma simples folha para nosso curso. Entretanto, como respeitamos o mistério da fonte que nos gerou, e confiamos em sua Eterna sabedoria, aos poucos vamos ganhando tudo que nos é necessário para percorrer nosso caminho.
G] Embora sejamos únicos, em breve seremos muitos. À medida que caminhamos, as águas de outras nascentes se aproximam, porque aquele é o melhor caminho a seguir. Então já não somos apenas um, mas muitos – e há um momento em que nos sentimos perdidos. Entretanto, como diz a Bíblia, “todos os rios correm para o mar”. É impossível permanecer em nossa solidão, por mais romântica que ela possa parecer. Quando aceitamos o inevitável encontro com outras nascentes, terminamos por entender que isso nos faz muito mais fortes, contornamos os obstáculos ou preenchemos as depressões em muito menos tempo, e com muito mais facilidade.
H] Somos um meio de transporte. De folhas, de barcos, de ideias. Que nossas águas sejam sempre generosas, que possamos sempre levar adiante todas as coisas ou pessoas que precisarem de nossa ajuda.
I] Somos uma fonte de inspiração. E portanto, deixemos para um poeta brasileiro, Manuel Bandeira, as palavras finais:
“Ser como um rio que fluiSilencioso no meio da noiteNão temer as trevas da noiteSe há estrelas no céu, refleti-las.E se o céu se enche de nuvensComo o rio, as nuvens são água;Refleti-las também sem mágoaNas profundidades traqüilas.”Como o rio, as nuvens são água;Refleti-las também sem mágoaNas profundidades traqüilas.”

Este post foi publicado em Todas, quarta-feira, (15/04/2009), às 08h35. Deixe seu comentário.

DA ESMOLA - PAULO COELHO NO G1.


Um homem da tribo dos Ansares se aproximou de Maomé.
“Sou filho de uma família pobre”, disse ele. “Venho pedir socorro, porque todos em minha casa estão passando fome”.
Maomé deu-lhe duas moedas, dizendo: “com a primeira moeda, compra comida para a tua gente. Com a outra, um machado para cortar lenha”.
O seu discípulo mais fiel anotou a história e costumava contar a todo mundo, acrescentando: “a verdadeira caridade não é resolver o problema imediato, mas ajudar a que ele nunca mais se repita”.

Este post foi publicado em Todas, quinta-feira, (16/04/2009), às 00h42. Deixe seu comentário.

DA HUMILDADE, PAULO COELHO...


.Alguém perguntou ao sufi Halgavi:


“Como um mestre escolhe seus discípulos?”
“Todo aquele que deseja realmente aprender, precisa ter consciência de que já tem a verdade dentro de si. Basta apenas despertá-la”.
“Mas como o senhor pode distinguir as verdadeiras intenções das pessoas ao se aproximarem?”
Halgavi respondeu: “sempre procurei manter uma atitude humilde e submissa. Alguns procuravam se aproveitar disto, eu então me afastava deles. Outros me olhavam como se eu fosse um verdadeiro santo, e eu me afastava deles ainda mais rápido. Assim, ficaram ao meu lado apenas os que me viam como uma pessoa igual a eles”.


Este post foi publicado em Todas, sexta-feira, (17/04/2009), às 00h03. Deixe seu comentário.

SOBRE O DIA DE HOJE...

Da janela, o homem reparou que o mestre sufi Uways descansava na praça em frente à sua casa. “Talvez ele possa me dizer algo importante”, pensou.
Saiu, e fingindo estar distraído, aproximou-se do mestre.
Depois de uma breve hesitação, perguntou a ele: “como o senhor se sente hoje?”
“Como alguém que acordou de manhã e não sabe se estará vivo no final do dia”, respondeu o mestre.
“Mas isto não é nenhuma novidade”, disse o homem. “Afinal, todos os seres humanos se encontram nesta mesma situação”.
“Sim”, disse Uways. “Mas quantas pessoas neste mundo se dão realmente conta disto?”


Este post foi publicado em Todas, sábado, (18/04/2009), às 00h13. Deixe seu comentário.

EU QUERO TER UM MILHÃO DE AMIGOS

Ashton Kutcher provavelmente nunca deve ter ouvido falar de Roberto Carlos e, portanto, nem deve desconfiar que sua recente obsessão já havia sido ambicionada, quase 35 anos antes, pelo rei. “Eu quero apenas” é uma daquelas músicas em que Roberto destila sua invejável capacidade de entoar as coisas simples da maneira simples, e exulta o real valor da amizade no verso que sagrou-se como um de seus mais conhecidos bordões: “eu quero ter um milhão de amigos, e bem mais forte poder cantar”.
A utopia de um tornou-se, enfim, a realização do outro; hoje, pela manhã, o astro dos filmes “Cara, cadê meu carro?” e “Recém Casados” declarou-se vencedor da batalha que travava com a poderosa CNN. O motivo da peleja? Qual dos dois perfis seria o primeiro a contabilizar a marca de um milhão de seguidores no Twitter.
A inofensiva disputa assumiu contornos épicos e chegou a polarizar os usuários da rede social, a partir do momento em que ficou evidente o que estava realmente em jogo. Afinal, o que devemos concluir deste episódio que resulta na consagração do ator –célebre por ter apresentado um programa de pegadinhas na MTV americana e por ser casado com Demi More- frente à mundialmente prestigiada rede de notícias?
Antes de responder à pergunta, cabe mencionar que não há muito o Twitter gozava de pouquíssimo prestígio. Criado em meados de 2006, o site de compartilhamento de mensagens instantâneas parecia ter encontrado sua vocação justo onde está o calcanhar de Aquiles de seus antecessores. O formato que limita as postagens a 140 caracteres, na prática, representou um convite à disseminação de relatos sem relevância sobre o cotidiano dos usuários.
Aos poucos, o aparente empecilho, decorrente da obrigatoriedade de postar textos pequenos, passou a ser enxergado como uma forma prática e direta de comunicar. A adesão de profissionais respeitados em diversas áreas, atraídos pela agilidade com que circula a informação pelo Twitter, serviu para confirmar a tese de que havia um grande potencial a ser explorado por quem se aventurasse pela rede.
Assim ao menos deviam pensar os integrantes do comitê eleitoral de Barack Obama, que apostaram (e acertaram) na capacidade do site virar a vedete de um dos mais significativos pleitos da história dos Estados Unidos. Como se não bastasse, em janeiro deste ano foi de um usuário da rede o furo do fantástico acidente que culminou no pouso de emergência, sem vítimas, de um avião comercial lotado nas águas do rio Hudson. Ambos os fatos devem ter colaborado para que o Twitter crescesse 131% apenas no mês passado.
Se não restam dúvidas quanto à relevância do que pode vir a ser compartilhado na rede, o mesmo não deve ser dito sobre o reinado que Kutcher acaba de conquistar. Envaidecido pela comprovação de sua fama, caprichou no discurso: “Isto é como Davi versus Golias. E mostra como as pessoas querem ser informadas. Isto é sobre nós. Significa que um homem pode ter mais voz que uma rede de noticiários”. Apesar de ter associado sua marcha triunfante ao combate à malária –o ator comprometeu-se em contribuir na prevenção da doença- a impressão que fica é a de que sua maior motivação foi mesmo inflar o próprio ego.
A disputa em que se meteu inaugura a segunda etapa da “Era Twitter”. Confirmadas influência e popularidade, resta ficar claro que a rede consolidou em definitivo sua transição: do voyeurismo das amenidades da vida alheia à importante engrenagem da nova ordem que regerá a informação neste século. Para isto, um bom começo seria dissociar-se de imediato da imagem de Kutcher.



Este post foi publicado em Instante Posterior, sexta-feira, (17/04/2009), às 16h54.

sábado, 11 de abril de 2009

PESSACH A festa da Páscoa Judaica...

"A cada geração cada ser humano deve se ver como se ele pessoalmente tivesse saído do Egito. Pois está escrito: "Você deverá contar aos seus filhos, neste dia, "D'us¹ fez estes milagres para mim, quando eu saí do Egito..." (da Hagadá)





Pessach, (pronuncia-se pêssar) vem de passach - saltar, pular, lembrando a passagem de D’us sobre as casas dos judeus no Egito, poupando-os das pragas que lançou sobre os egípcios. Para os judeus é a festa mais importante, em que se comemora a liberdade e a identidade judaica, permitindo a sobrevivência desse povo por longos séculos através dos ritos.
Os judeus, vêem na Páscoa a definitiva Aliança. Aliança que sustenta a fé absoluta no poder do Senhor e garante aos homens sua proteção frente à vida e seus problemas, sustenta na confiança, sua persistência e, conforme as circunstâncias, seu desassombro ou estoicismo ante as provações. A Páscoa judaica é portanto a festa da vida, da proteção do Senhor ao seu povo na sua caminhada.

A Pessach também carrega um significado agrícola, já que marca o início do período de colheita na Terra de Israel. O antigo povo de pastores e agricultores comemorava, nessa época, a chegada do momento mais festivo da natureza, que era o início da colheita de cevada e a entrega do ômer - parte da cevada era ofertada a D'us no segundo dia de Pessach. Era um momento de alegria para este povo que vivia em íntimo contato com a terra, de onde extraíam a subsistência.
A festa de Pessach tem início com uma cerimônia no entardecer do 14º dia (primeiro dia de lua cheia da primavera) do mês de Nisan (primeiro mês do calendário judaico) e prolonga-se por 7 dias em Israel e por 8 dias em outros lugares do mundo. O primeiro dia representa a saída do Egito e o sétimo a passagem pelo mar vermelho, onde os judeus atravessaram em terra firme e seca. Os dias intermediários são chamados de Chol Homoed. Pessach sempre ocorre na Primavera de Israel, época de renovação da natureza. Quando Pessach cai num Sábado chama-se Shabbat Hagadol (o grande Shabbat), porque os judeus saíram do Egito também num Sábado.

O pão ázimo (Matzá)

Nestes oito dias, é proibido comer qualquer alimento que contenha como ingredientes grãos de trigo, centeio, cevada, aveia ou espelta, passíveis de fermentação quando em contato com a água. Em outras palavras, qualquer tipo de pão, biscoito, bolo, massa, cerveja, whisky, vodka, licores, etc, estão proibidos, mesmo em pequenas quantidades. Isto acontece para lembrarem-se de quando um povo inteiro, conduzido pela vontade de D'us encarnada em Moisés, saiu tão apressadamente do Egito que a massa preparada para o fabrico do pão não teve tempo de fermentar.

A única exceção a esta regra é a Matzá (pão ázimo), alimento básico durante Pessach. Trata-se de uma espécie de bolacha não-fermentada, preparada à base de água e farinha de trigo. O processo de fabricação é cuidadosamente controlado e o tempo total de preparo não pode exceder 18 minutos, a fim de garantir que não tenha indício de fermentação. As perfurações feitas na Matzá antes de ser colocada no forno impedem a formação de bolhas de ar e o crescimento da massa. Depois de assada, esta não corre mais o perigo da fermentação, podendo, portanto, ser consumida sob qualquer forma. Atualmente é mais comum encontrar Matzá industrializada, sendo costume de alguns comer Matzá feita à mão.

A Pessach é uma festa tipicamente familiar. No dia anterior à celebração faz-se uma profunda limpeza da casa, principalmente na cozinha, procurando não deixar nenhum alimento fermentado (chametz). Muitas famílias utilizam panelas, pratos e talheres que jamais estiveram contato com alimentos chametz, caso contrário é necessário fazer uma purificação destes utensílios, escaldando-os.

Depois, há o ritual simbólico de procura de fermento, chamado Bedikat chametz. Depois que a casa está completamente limpa e todos os alimentos fermentados foram eliminados, os pais espalham algumas migalhas de pão pelo ambiente e as crianças procuram o chametz com a ajuda de uma vela. Então, utilizando uma pena e uma colher de pau, as migalhas são coletadas e, na manhã seguinte, queimadas fora de casa para ensinar às novas gerações que só é permitido comer pães ázimos, seguindo a prescrição do livro do Êxodo. Daí em diante, por 9 dias, contando a véspera, não entrarão nas casas judias massas fermentadas.
A cabala ensina que o fermento representa as imperfeições morais e as tendências negativas dos homens que devem fazer um exame de consciência dos seus atos, do seu comportamento, para se libertarem das más qualidades. Da mesma forma que a massa fermentada enche-se de ar e cresce, assim também é o homem que se enche de vaidade e vazios.
Moisés liberta os hebreus do cativeiro no Egito
O povo hebreu foi libertado da escravidão egípcia por Moisés. A história de Moisés, o profeta, e de como ele teria conduzido o povo judeu da escravidão à liberdade é contada numa passagem bíblica cujo sentido é lembrado no Pessach pelos judeus em todo o mundo.O Antigo Testamento relata que um faraó egípcio, depois de transformar em escravos os hebreus que lá viviam, baixou um decreto: todos os judeus deveriam ser mortos ao nascer. A mãe de Moisés, para salvá-lo, colocou o recém-nascido num cesto, deixando-o a vagar nas águas do rio Nilo. O bebê foi encontrado e criado pela filha do faraó, vivendo então como um príncipe. Já adulto, ao ver um guarda egípcio açoitando um escravo hebreu, matou o guarda e fugiu para o deserto. Lá, num longo período de meditação, recebeu de Deus a missão de tirar os hebreus do Egito e conduzi-los para a Terra Prometida. Como o faraó não aceitava as ordens divinas levadas ao rei por Moisés, Deus castigou o faraó enviando dez pragas terríveis para o Egito. A cada desgraça, Moisés procurava o faraó pedindo-lhe que obedecesse a Deus, mas o rei se recusava a libertar os hebreus. O povo de Israel (os hebreus) estava a salvo dessas desgraças. O último castigo enviado por Deus foi a morte de todos os primogênitos no Egito por um anjo que viria exterminá-los. Mas Moisés ordenou que os judeus marcassem as portas de suas casas com um sinal feito com sangue de um cordeiro. Assim, o anjo da Morte não passou pelas casas identificadas com o sinal, poupando os primogênitos judeus. É daí que vem o nome Pessach, que significa passagem, passar por cima de alguma coisa, no sentido de omitir, ou seja, a Morte não passou pelas casas dos judeus e seus primogênitos foram salvos. Ao ver o próprio filho morrer, o faraó resolveu obedecer ao Deus de Moisés, deixando os hebreus irem embora do Egito. Mas depois, traindo sua palavra, mandou o exército atrás do povo que abandonava o cativeiro. Então, por meio de Moisés, Deus fez com que as águas do mar Vermelho se abrissem para dar passagem aos hebreus e se fechassem sobre o exército do faraó. Dessa forma, o povo judeu pôde seguir seu caminho para Canaã, a Terra Prometida.
Por isto, é costume os primogênitos judeus jejuarem no dia 14 de Nissan, véspera de Pessach, como recordação do perigo que estiveram expostos os primogênitos judeus no Egito.
O Seder de Pessach

Naquele dia contarás a teu filho, dizendo: É isto pelo que o Senhor me fez, quando saí do Egito (Êxodo 13:8).



A Festa de Pessach tem como ponto central, a realização do Seder - ordem em hebraico - ceia ritual festiva da primeira noite da Pessach (na Diáspora² a primeira e a segunda), que recebe este nome por ser composta de quinze etapas, as quais devem ser cumpridas seguindo-se uma ordem pré-estabelecida pela lei e tradição judaicas. Religião e gastronomia unem-se, tornando o cultivo da História mais vibrante, mais dinâmico.

Desde tempos imemoriais o Seder, ocupa um lugar de destaque na liturgia e na vivência do lar judaico. Cheio de símbolos e metáforas do passado, presente e futuro,
reúne a família judaica em todos os cantos do mundo em torno de uma vivência comum. Esta noite está composta por preceitos que têm sua origem na Torá, normas que vêm dos ditames rabínicos e por um sem número de costumes e tradições que têm por finalidade recordar cenas do passado.

No Seder todos - velhos, adultos e crianças - têm sua função. É o momento de reviver o passado e recriar a experiência dos antepassados na noite em que partiram do Egito. Tudo gira em torno da tradição que passa de pai para filho, dando, assim, continuidade a esse elo inquebrantável. Durante toda a cerimônia da noite do Seder, é lida a Hagadá (livro que narra a história da libertação do povo hebreu,do Egito). Cada participante deve ter um exemplar, para que possa envolver-se ativamente em todos os passos da celebração. Por esta leitura procura-se ensinar às futuras gerações por que aquela noite não é como as outras.

Inicia-se o Seder com orações e um gole de vinho. A criança mais nova da família começa o ritual com quatro perguntas em forma de canto sobre o sentido das cerimônias e a saída dos judeus do Egito. Passa-se então às leituras da Hagadá. No Pessach são as crianças que conduzem a festa. Cabe a elas abrir a porta para a visita de Elias que, segundo a tradição, visita todos os lares nesta noite para trazer suas bênçãos. As crianças demonstram, abrindo as portas, a segurança de estarem sob a proteção de Deus. São elas também que participam da busca do afikoman, um pedaço de Matzá que os mais velhos escondem pela casa.

No início da ceia, o responsável pela celebração do Seder (geralmente o pai ou o avô da família), sentado numa poltrona confortável, com uma almofada como encosto, para poder se reclinar, tem diante de si, sobre a mesa,a Keará - "prato" com os símbolos de Pessach:
Zroa: no ângulo superior direito, osso com carne assada, como lembrança do cordeiro pascal que era sacrificado em Pessach na época do Templo.
Beitzá: no ângulo superior esquerdo, um ovo, lembrança dos sacrifícios da festa.
Maror: no centro, raiz forte, recordando a amargura que sofreu o povo judeu durante a escravidão no Egito . Alguns judeus também usam, como maror, batatas cozidas.
Charósset: no ângulo inferior direito, uma mistura de maçãs e nozes picadas e amassadas com vinho tinto kasher , simbolizando a massa dos blocos utilizados no trabalho dos nossos antepassados no Egito.
Karpás: no ângulo inferior esquerdo, salsão ou outro tipo de verdura que se molham em água salgada - símbolo das lágrimas dos escravos no Egito e as águas do mar que abriram passagem ao povo judeu.
Chazéret: entre estes dois últimos, rabanete ou alface amarga, que será utilizada como uma segunda porção de Maror.

O vinho é outro elemento indispensável na celebração do Seder e é um símbolo de júbilo. É costume mergulhar um dedo na taça de vinho quando se pronuncia o nome de cada uma das Dez Pragas, retirando-o em seguida e despejando fora uma gota de cada vez. A quantidade deve ser suficiente para que cada um possa ter sua taça cheia quatro vezes durante a cerimônia. Além de ser um sinal de júbilo, como em toda comemoração judaica, este número representa as quatro formas pelas quais Deus prometeu a libertação ao povo (Êxodo 6:6-7): "Eu vos libertarei do jugo dos egípcios e vos livrarei da servidão. Eu vos redimirei com o braço estendido (...) e vos tomarei por meu povo".Complementam a mesa do Seder de Pessach:
- três pães ázimos (Matzot) são dispostos à mesa, um sobre o outro, em um recipiente especial com três divisões, ou cada um envolto em um guardanapo. Cada pão representa um dos três grupos judeus: Israel, Levi, Kohen. Um dos pães é partido ao meio e suas metades são reservados para o afikoman, sobremesa servida ao fim do Seder. Sobre os outros dois é recitada a benção do pão.
- uma taça de vinho, geralmente de ouro ou prata, especialmente reservada para Eliahu Hanavi, o profeta Elías. Acredita-se que ele chega simbolicamente a cada lar judeu para participar por uns instantes junto com os presentes da noite do Seder.
- taças de vinho para todos, nas quais se beberá, sucessivamente quatro vezes durante a noite. Essas quatro taças de vinho celebram a libertação dos judeus da escravidão do Egito.
A cerimônia só termina quando todos comem um pedaço do afikoman. Às vezes, é feita uma brincadeira, e aquele que conduz as celebrações esconde o afikoman embrulhado num guardanapo para que as crianças descubram o esconderijo. Aquelas que conseguem encontrar o tesouro ganham prêmios. Em algumas famílias, são as crianças que escondem o afikoman, e o líder tem de resgatá-lo em troca de um presente.
Depois, vem a bênção de ação de graças e é tomada mais uma taça de vinho, que é dedicada ao profeta Elias.
Ao final da celebração do Seder, é apresentada uma série de canções e melodias judaicas tradicionais, das quais, a última, é denominada "No ano que vem em Jerusalém", significando um voto de esperança que expressa o que está no coração de todo judeu: que se restabeleça o Reino de Deus e que Jerusalém seja o símbolo, mesmo incompleto, da vida nos tempos messiânicos.
Na primeira noite do Seder, há sempre alguns convidados. É dever convidar aqueles que estão tristes, sós, sem família, para que possam celebrar juntos a Festa da Liberdade.
Um outro costume da Pessach é a coleta de dinheiro para comprar matzot., vinho e outros alimentos para os pobres.

Quatro nomes de uma mesma FestaPessach é conhecido por quatro nomes:
Chag ha'Pessach - a Festa do Cordeiro Pascal, em alusão ao sacrifício feito pelos cativos no Egito antes da última praga. Tal oferenda foi instituída nas gerações posteriores, sendo abolida juntamente com os demais quando da destruição do Segundo Templo.
Chag Hamatzót - a Festa dos Pães Ázimos. "Comereis pão sem fermento durante sete dias..." (Êxodo 12:15). Revivemos a pressa em fugir do Egito, não dando tempo à massa fermentar. Durante os dias da Festa, alimentamo-nos com pães assados unicamente de água e trigo.
Chag ha'Aviv - a Festa da Primavera. A vida começa a brotar no hemisfério Norte nesta época. Com ela, renovam-se nossas esperanças de uma vida melhor a todos. Pessach, segundo a Torá, deve ser celebrado justamente neste tempo tão propício à reflexão, tanto que, em função da disparidade entre os calendários lunar (judaico) e solar - o primeiro tem alguns dias a menos, o que acarretaria, com o passar dos anos, em um distanciamento de Pessach da Primavera - a cada dois ou três anos, um mês é adicionado.
Zeman Cherutênu - época de nossa libertação. Nós, seres humanos, como um todo.
1- D'us ou D-us é uma das formas utilizadas pelos judeus de língua portuguesa para se referirem ao criador do mundo sem citar seu nome completo em respeito ao terceiro mandamento recebido por Moisés (Não tomarás em vão o nome de YHWH). Em outros idiomas, eliminam-se também uma ou mais letras da palavra correspondente, como no hebraico transliterado El'him ou no inglês G-d / G'd.


2- Diáspora é o nome dado ao processo de dispersão dos judeus pelo mundo no decorrer dos séculos, e a conseqüente formação de comunidades judaicas fora da Palestina. Por extensão de sentido, diáspora também se aplica à dispersão de qualquer povo em conseqüência de preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica.

O Calendário Judaico
O calendário judaico, diferentemente do gregoriano (cristão) que é solar, está baseado no movimento lunar, quando cada mês (com 29 ou 30 dias) se inicia com a lua nova. Se comparado com o calendário gregoriano, temos em um ano solar 12,4 meses lunares, ocorrendo uma diferença a cada ano de aproximadamente 11 dias. Para compensar essa diferença, a cada ciclo de 19 anos acrescenta-se um mês inteiro (Adar II), o ano de 13 meses ou embolísmico. Essa alteração é necessária por causa da Páscoa. A Páscoa judaica deve cair sempre na primavera.
Virgínia Brandão(Fonte: CORREIO GOURMAND)
Fonte: Federação Israelita de Minas Gerais
Ática EducacionalAssociação da Juventude Israelita Hehaver
Jewish Zionist Education
NetJudaica
Revista Morashá



PÁSCOA Celebrando a Vida, o Renascer e a Esperança...

A PÁSCOA CRISTÃ

A Páscoa Cristã celebra a ressurreição de Jesus Cristo que, segundo a Bíblia, teria ocorrido três dias depois da sua crucificação. Ainda que todos os domingos do ano sejam destinados pelas igrejas cristãs de todo o mundo à celebração da ressurreição de Cristo (o que é feito por meio da Eucaristia), no domingo de Páscoa, esse acontecimento ganha destaque, já que se festeja uma espécie de aniversário da ressurreição; é a festa da vida.

Para entender o significado da Páscoa cristã, é necessário recordar que muitas celebrações antigas foram integradas nos acontecimentos relacionados com Cristo.

A festa da Páscoa refere-se à última ceia de Jesus com os Apóstolos, a sua prisão, julgamento e condenação à morte, seguida da sua crucifixão e ressurreição (Jesus voltou a viver e subiu ao céu). A celebração começa no Domingo de Ramos (quando Jesus entra em Jerusalém e é aclamado com ramos de palmeira) e acaba no Domingo de Páscoa (com a Ressurreição de Cristo): é a chamada Semana Santa.
A Páscoa é a principal festa do ano litúrgico cristão e, provavelmente, uma das mais antigas, tendo surgido no início do segundo século em Roma, com o distanciamento do Judaísmo. O Cristianismo gentílico queria festejar sua própria festa, desprendendo-se das tradições judaicas. Este processo foi lento e conflituoso, já que durante os três primeiros séculos da Igreja, por estar frequentemente sob perseguição, não houve tentativas de se estabelecer as Festas Cristãs. Porém, quando Constantino se tornou imperador (306 dC), e o Cristianismo deixou de ser ilegal, foi possível considerar mais cuidadosamente a data da Páscoa. Um dos propósitos do Concílio de Nicéia, em 325 dC., foi o de definir esta data, com a recomendação de que caísse num domingo e nunca no dia da Páscoa Judaica.
Assim, ficou definido que ela seria comemorada no primeiro domingo após a lua cheia do equinócio da primavera. O equinócio é o ponto da órbita da Terra em que se registra uma igual duração do dia e da noite. Isso significou que a Páscoa seria uma data móvel, que aconteceria anualmente, sempre entre os dias 22 de março e 25 de abril.
Mas há um modo mais fácil de saber quando é o domingo de Páscoa. Basta contar 46 dias a partir da quarta-feira de cinzas. A Páscoa cristã é antecedida pela Quaresma, período que dura 40 dias entre a quarta-feira de cinzas e o domingo de Ramos, que acontece uma semana antes da Páscoa. Os católicos destinam a Quaresma para fazer penitência, como o jejum, com o objetivo de libertar as pessoas dos pecados.
A Páscoa cristã é festejada no início da primavera no hemisfério Norte e alguns elementos deste período muito significativo, em função do rigor do inverno, que parece matar
toda a vida, foram inseridos no contexto da festa. O coelho, por exemplo. pois é o primeiro animal que reaparece depois do inverno e tem um grande poder reprodutor. Na primavera a natureza reascende como se ressurgisse. Considerando o sentido da Páscoa cristã, este acontecimento se torna significativo, uma proclamação da vitória da vida sobre o poder da morte, efetivada na ressurreição de Jesus Cristo.
Os elementos hoje presentes nos "símbolos" pascais nos remetem a esta mensagem da vida. Evidentemente, que para nós do hemisfério Sul, alguns elementos não tem muita força de significado, pois não reflete nossa experiência, mas isso não tira destes elementos seu valor.

Quaresma, período de penitência.
A Quaresma é um período de quarenta dias entre o final do tríduo carnavalesco e a Páscoa. É um período no qual os cristãos eram convidados a fazer penitência. No início dessa tradição, as penitências eram públicas e aqueles que haviam pecado gravemente deviam cobrir-se de cinzas desde a quarta feira.
Era também um período de preparação para o batismo, que ocorria no Domingo de Páscoa. Desde 1964 que, no Brasil, o período da Quaresma é celebrado com a Campanha da Fraternidade.
Os bastidores políticos
A Páscoa judaica influenciou alguns dos acontecimentos relacionados à prisão, condenação e morte de Jesus. Primeiro, relata a Bíblia, houve o receio de provocar um levante popular, caso a prisão ocorresse durante a festa. Os temores, porém, mostraram-se infundados. Levado ao governador Pilatos, Jesus ainda teria a chance de ser libertado, já que era costume soltar um prisioneiro na Páscoa. Mas o povo, influenciado pelos sacerdotes, pediu a liberdade para outro prisioneiro, Barrabás. Na sexta-feira, Jesus foi crucificado e sepultado, mas, no domingo, o sepulcro amanheceu vazio. Nesse mesmo dia, várias pessoas o viram e falaram com ele.
A Páscoa cristã, embora alicerçada na Páscoa judaica, apresenta outros caracteres. Sabemos que Jesus na última ceia estava comemorando a Páscoa judaica, pois Jesus e seus discípulos eram judeus: Ele tinha sido instruído no Templo em Jerusalém, Ele vivia como hebreu do seu tempo e respeitava a Lei. Finalmente, sendo Rabi ensinava nas Sinagogas, que são ainda hoje escolas da Lei (religiosa).
Mas a Páscoa cristã acrescenta elementos diferentes: além de confirmar a pertença do fiel a Jesus e a Deus, ela lhe acena com a remissão dos pecados, quando deles se arrepende e confessa antes de aproximar-se da mesa da comunhão. Ela, sobretudo, lhe garante a vida eterna, já que o Cristo por sua ressurreição, venceu a morte.

OS SÍMBOLOS DA PÁSCOA CRISTÃ
A Cruz da RessurreiçãoTraduz, ao mesmo tempo, sofrimento e ressurreição. Símbolo da fé católica. A cruz mistifica todo o significado da Páscoa, na ressurreição e também no calvário de Jesus Cristo. Desde o ano 325 d.C. é considerada como símbolo oficial do cristianismo. O CordeiroSimboliza Cristo, que é o cordeiro de Deus, e se sacrificou em favor de todo o rebanho. Representa Jesus Cristo, o filho amado de Deus, sacrificado como um cordeiro para tirar os pecados dos homens e do mundo. O cordeiro é o símbolo mais antigo da Páscoa. No Novo Testamento, simboliza Cristo que é o Cordeiro de Deus sacrificado em prol da salvação de toda a humanidade, seu rebanho.



O Pão e o Vinho
Na ceia do senhor, Jesus escolheu o pão e o vinho para dar vazão ao seu amor, representando o seu corpo e sangue, eles são dados aos seus discípulos, para celebrar a vida eterna. No Ocidente, o pão é representado pela hóstia. O pão e o vinho eram, na Antigüidade, a comida e bebida mais comuns. Jesus Cristo se serviu desses alimentos para simbolizar sua presença constante ao instituir a Eucaristia. Assim, o pão e o vinho simbolizam o corpo e o sangue de Jesus e a vida eterna. O Círio (vela)Quer dizer: "Cristo, a luz dos povos". Alfa e Ômega nela gravadas querem dizer: "Deus é o princípio e o fim de tudo". É uma grande vela com cinco cravos, representando as cinco chagas de Cristo nas mãos, nos pés e no peito. As velas são uma marca das celebrações religiosas pascais. Em certos países, os católicos apagam todas as luzes de suas igrejas na Sexta-feira da Paixão. Na véspera da Páscoa, fazem um novo fogo para acender o principal círio pascal e o utilizam para reacender todas as velas da igreja. Então, acendem suas próprias velas e as levam para casa a fim de utilizá-las em ocasiões especiais. No Sábado Santo a celebração católica é iniciada com a bênção do fogo, chamado de "fogo novo".

O Calendário Cristão

O calendário cristão é um calendário solar, cuja marcação do tempo baseia-se na movimentação do sol. Remonta ao período de Júlio César, o primeiro imperador romano.
Com o auxílio de Sosígenes, astrônomo de Alexandria, Júlio César elaborou um calendário em que o ano comum seria de 365 dias e que, para acertar o ano civil ao ano trópico (designação para o tempo decorrido entre duas passagens consecutivas), fosse acrescentado de 4 em 4 anos um dia complementar. Ao ano de 366 dias foi dado o nome de bissexto. Por isso, a cada quatro anos o mês de fevereiro tem 29 dias. Esse calendário foi criado no ano 45 a.C. e denominou-se calendário juliano em homenagem ao imperador que o instituiu. No século 16 o papa Gregório XIII fez algumas correções no calendário Juliano, e por isso passou a ser chamado também de gregoriano. É que o ano trópico não tem exatamente 365 dias e 6 horas como se pensava, e sim, 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 50 segundos. Portanto, o calendário juliano estava errado em 11 minutos e 10 segundos por ano para mais. Esses, acumulados no decorrer dos séculos, trouxeram confusão, a ponto de em 1585 já haver uma diferença de 10 dias entre o ano trópico e o ano civil. Coube então ao papa Gregório XIII determinar a reforma do calendário cristão.

Embora o calendário cristão seja solar, ele é lunar quanto à páscoa. Os cristãos tomaram emprestado o calendário judaico para que a páscoa cristã coincidisse com a páscoa judaica. É por isso que a cada ano a nossa páscoa cai em dias e até meses diferentes. O princípio é o mesmo para o carnaval. Não existe carnaval no calendário judaico, mas por ser o carnaval uma festividade essencialmente pagã, adota-se o calendário lunar para que o carnaval aconteça sempre antes da páscoa.


Virgínia Brandão.(FONTE:CORREIO GOURMAND)