sábado, 25 de abril de 2009

EM BUSCA DE ALGUÉM - PAULO COELHO NO G1(MENSAGEM DO DIA).

Um guerreiro da luz precisa de amor. O afeto e o carinho fazem parte de sua natureza – tanto quanto o ato de comer, o de beber e também o gosto pelo bom combate.


Quando o guerreiro não está feliz, algo está errado.


Assim, ele interrompe o combate e vai em busca de companhia, para assistir junto de alguém ao entardecer.


Se ele tem dificuldades em encontrá-la, pergunta a si mesmo: “Tive medo de me aproximar de alguma pessoa? Recebi afeto e não percebi?”


Um guerreiro da luz usa a solidão, mas não é usado por ela.



Este post foi publicado em Todas, sexta-feira, (24/04/2009), às 00h08. Deixe seu comentário.

DEZ COISAS PARA SE FAZER ANTES DE MORRER - BRUNO MEDINA EM INSTANTE POSTERIOR NO G1.

Diz-se por aí –e até hoje não houve motivos para discordar- que a única verdade absoluta inerente à vida é a certeza de que, cedo ou tarde, chegará o dia no qual cada um de nós terá de se despedir deste mundo. Perdoem a aparente morbidez do tema, mas devo desde já admitir ser um daqueles que consideram sensato (e até saudável) o empenho de se evitar que os conceitos comumente associados à morte a transformem num tabu.


Sendo nós humanos e por natureza imperfeitos é de se esperar que sempre haja quem prefira viver à sombra de sua capa negra, à espera da fatídica jogada, ao invés de aproveitar da melhor maneira possível os dias a que tem direito. Ao longo dos séculos, nossa obsessão evidencia-se pela extensa produção artística e filosófica dedicada ao assunto, onde seguramente se inserem as mais relevantes obras já criadas pelo homem.


Se não se enquadra na categoria descrita acima, José Martí, escritor, poeta e líder nacionalista cubano, ao menos colaborou para conceder alguma leveza à questão. Atribui-se a ele a ideia de que nenhuma existência terá sido em vão caso atenda à apenas três exigências: plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Baseado na simplicidade de tais preceitos e na popularidade que adquiriram é razoável imaginar que muita gente deva ter partido desta para uma melhor com a sensação de dever cumprido graças ao sujeito.


Tendo como referência o que foi proposto por Martí, alguns anos atrás a revista americana Forbes criou uma nova e aprimorada versão da lista, sob o título de “10 coisas para se fazer antes de morrer”. Muito embora a publicação seja conhecida por divulgar quem são os indivíduos mais ricos e poderosos do planeta, resolvi dar-lhe crédito e submeter minhas melhores e mais estimadas vivências aos critérios propostos, só pra ver que bicho dá. Posto isto, vamos a eles:


10 COISAS PARA SE FAZER ANTES DE MORRER


1. Fazer uma ‘Pilgrimage’- o termo é utilizado para definir uma longa jornada, ou a viagem que coincide com uma busca de grande valor moral. Os destinos que primeiro vem a mente são Jerusalém, Roma, Mecca ou Santiago de Compostela. Em meu favor, só posso assinalar passagens pela Basílica de Aparecida e pelo Cristo Redentor, mas creio que estes lugares não contemplam o sentido pretendido. Comecei mal.


2. Memorizar um poema e passá-lo a diante – essa é pra recuperar, está fácil. Não me lembro ao certo da ocasião, mas com certeza já apliquei o artifício a alguma pretendente durante a adolescência. Próxima.


3. Escalar sua própria montanha – pelo que entendi, o significado é transpor uma dificuldade, vencer um desafio. Faço isso toda vez que me apresento em público ou diante das câmeras.


4. Fazer uma refeição boa o suficiente para ser sua última – tenho que pensar… não sei se a circunstância contribuiu (dia livre numa cidade tediosa) , mas em minha última passagem por Portugal comi um prato divino; o restaurante era do tipo familiar, localizado num povoado de 5 mil habitantes. Polvo à vinagrete com batatas ao murro pode não ser uma pedida muito popular mas, acreditem, na ocasião era o manjar dos deuses.


5. Ter um inimigo mortal – este item está aqui porque ter um opositor veemente é uma forma de comprovar a firmeza de suas convicções. Vou ficar devendo, não sou muito de guardar rancor.


6. Perdoar alguém - pela mesma razão do item anterior vou dizer que sim, perdoei muitas vezes. Para citar um caso, lembro-me de que certa vez meu irmão escreveu na tampa da caixa do Jogo da Vida que eu havia roubado na roleta, e ainda pôs a data. A mentira ficou perpetuada e sempre que jogávamos com amigos eu precisava me defender da injúria. Apesar das constantes humilhações, perdoei.
7. Ver por você mesmo que a terra é redonda – para alguém da minha idade já viajei bastante até. Não tanto quanto queria, mas tenho tempo ainda. Vou me dar meio ponto nessa.
8. Levar alguém que ama a ‘Camera degli Sposi’ – trata-se de uma sala do Palácio Ducal, na Itália. Ostensivamente decorada por pinturas e afrescos, destaca-se pelo incrível valor histórico e pela beleza. Nunca estive lá, no entanto posso me gabar de ter conhecido Mona Lisa, Guernica, os quadros de Van Gogh e os da fase negra do Goya. Sempre sozinho. Será que vale meio ponto também?
9. Desafiar a gravidade – sendo esta uma lei imutável da física, minha interpretação aponta para quem é ou foi rebelde sem causa ou vivenciou alguma experiência ultra-radical. Já viajei de teco-teco, de barquinho em meio a tempestade, cruzei ponte preste a cair, mas nunca por vontade própria. Então seria incorreto afirmar que desafiei a gravidade, assim, deliberadamente.
10. Deixar que alguém aproveite a chance que você perdeu – Bem, essa está guardada para o meu filho.
É chegada a hora da contabilidade. Das dez coisas para se fazer antes de morrer, contando os meio pontos, vou considerar já ter feito cinco. Confesso que, a esta altura da vida, ficaria preocupado se tivesse passado de sete. Para os supersticiosos, uma dica: talvez o único jeito de retardar o “xeque-mate” seja deixar a lista sempre incompleta.
Este post foi publicado em Instante Posterior, sexta-feira, (24/04/2009), às 16h00. Deixe seu comentário.

VOCÊ - PAULO COELHO NO G1(MENSAGEM DO DIA).


Você não é o que aparenta ser nos momentos de tristeza. É muito mais que isso.
Ouça seu coração.
Lembre-se das pequenas lutas travadas em todos os dias de sua vida: você sobreviveu a elas. Só isto já é motivo de orgulho.
Enquanto muitos já se foram, por razões que nunca com¬preendamos, você continua aqui. Por que Deus levou pessoas tão incríveis, e deixou você? Porque sua vida ainda tem um sentido. Mesmo que não lhe seja claro.
Neste momento, milhões de pessoas já desistiram: não se aborrecem, não choram, não fazem mais nada. Apenas esperam o tempo passar.
Perderam toda e qualquer capacidade de reação.
Você, porém, está triste. Se ainda tem esta capacidade, é porque sua alma continua viva. E se sua alma continua viva, o Paraíso é possível.


Este post foi publicado em Todas, sábado, (25/04/2009), às 00h15. Deixe seu comentário.

sábado, 18 de abril de 2009

ARTE DOS FALSÁRIOS - NO SITE EM OUTRAS PALAVRAS.


O subprime foi um gigantesco esquema de Ponzi* - fraude em que, como na corrente da felicidade, ganha quem joga, até que a pirâmide invertida venha abaixo. Enquanto a bolha imobiliária americana cresceu, credores emitiram hipotecas ao deus-dará, bancos as enfeitaram com a emissão de títulos, maquiados pelas agencias de classificação de risco, que gestores de recursos compraram com dinheiro emprestado, contabilizando lucros não realizados. Fortunas se criaram e se perderam, mil vezes maiores que os US$ 50 milhões que Van Meegeren ganhou falsificando quadros de Vermeer e vendendo-os a museus na Holanda e a nazistas durante a 2ª Guerra Mundial. Frank Wynne conta essa história em Eu Fui Vermeer.De Beny Parnes, estrategista-chefe do BBM Investimentos, recebi o livro e a recomendação de traçar paralelos entre os desvarios do mercado financeiro na última década e os do falsário holandês na metade do século 20.O sucesso do falsário depende de dois elementos: avanço da tecnologia e desejo da vítima de se deixar enganar. O avanço técnico no caso de Meegeren foi a baquelita, primeiro plástico para fins comerciais, que lhe permitiu substituir o óleo vegetal como veículo na pintura. Com ela obteve o endurecimento da tinta, necessário para mantê-la inalterada em testes de autenticidade. No caso do esquema financeiro, a inovação tecnológica combinou derivativos com artimanhas de controle de risco, como a securitização que transformava em títulos AAA empréstimos hipotecários - cuja qualidade era tão ruim que até mesmo Alan Greenspan, depois do desastre consumado, se confessou em estado de choque.Quanto ao segundo elemento necessário ao seu sucesso, Van Meegeren encontrou-o no desejo dos críticos de descobrir quadros de um período intermediário na obra de Vermeer. Apesar da pequena produção do pintor seiscentista, existe uma disparidade gritante de estilo e tema entre Diana e suas Companheiras (obra do artista jovem) e A Leiteira (o primeiro trabalho da maturidade). No vazio entre um e outro, os críticos imaginaram um Vermeer desaparecido, que uniria as duas fases. O falsário identificou o desejo dos críticos e o realizou.“Falsificações são um retrato cambiante dos desejos humanos. Cada sociedade falsifica as coisas que mais cobiça”, argumenta Mark Jones em The Art of Deception. No começo do século 21 o desejo era o de uma vida incompatível com os ganhos da economia real. A ganância incitava a crença na ausência de riscos, na morte da teoria do ciclo de negócios e no céu como limite para as taxas de crescimento.Beny Parnes observa: “Os agentes financeiros sabiam o que faziam. Ou quase todos. Com certeza não faltava consciência de seus próprios atos aos empacotadores de hipotecas e aos bancos que colocavam esses pacotes em suas carteiras de investimento. Os compradores dos ativos suspeitavam do que estava acontecendo. Mas o desejo de altos rendimentos gerava a crença em hipóteses bobas sobre risco e o incentivo para entrar no negócio e comprar o Vermeer de Meegeren”.Como dizia Maquiavel, “quem trapaceia sempre encontra quem se deixa trapacear, porque os homens cedem prontamente a desejos momentâneos”.A diferença entre a experiência dos falsários de hoje e a de Meegeren está na seqüela da trapaça. Meegeren agiu como indivíduo isolado. Preso, e depois absolvido, causou prejuízos e decepção a museus e seus freqüentadores, mas não um desastre econômico. No século 21 a ação coletiva de milhares de investidores produziu uma bolha hipotecária que mudou a alocação de recursos e terminou em catástrofe para o globo.


* Este artigo (editado pelo Freeman) é da economista e professora Eliana Cardoso. Foi escrito no início de Dezembro, antes da divulgação da notícia da prisão de Bernard Madoff que, através de seus fundos financeiros criou um verdadeiro esquema de Ponzi, fraudando aplicadores do mundo inteiro em pelo menos US$50 bilhões. Realmente, com esta enorme crise financeira, recheada de escândalos explícitos e pior, não explicitos, está na hora de pensarmos seriamente em manter nosso rico dinheirinho debaixo dos nossos colchões...
A pintura é (esperamos) do verdadeiro Vermeer - "A garota do brinco de pérola".

DESTRUINDO EMPREGOS - NO SITE EM OUTRAS PALAVRAS.


A realidade da crise traz várias dificuldades para o governo Lula, situação que, em si, já é um grande desafio para uma administração despreparada e só acostumada com ventos a favor.A mais visível dessas dificuldades é o desemprego e mostra bem a virada da situação: depois de meses anunciando recordes dos empregos formais – como se eles fossem os criadores da bonança - o governo agora precisa lidar com as demissões. E, em vez de atacar o problema, buscando soluções eficazes, procura culpados, ora na conjuntura internacional ora, nas empresas locais.O presidente, recentemente, manifestou-se indignado com as demissões na Embraer, reclamou de não ter sido avisado, chamou a diretoria da companhia e, não falou mais nada. Como em outras ocasiões, Lula parece esperar para que a situação se resolva por si. Por outro lado, para manter os holofotes, a Justiça do Trabalho mandou suspender as demissões e, também, chamou a empresa para uma reunião de conciliação.Tem sido sempre assim. Quando o presidente e seu governo resolvem agir, agem equivocadamente, com o velho espírito sindicalista, isto é, apenas reivindicatório. Não agem com postura pró-ativa em busca de soluções efetivas.Essas ações, além de demagógicas, só indicam o despreparo do governo e a postura de órgãos que só agem com o intuito de criar problemas para a economia real, não compreendendo que, no final, a resultante é sempre prejudicial para a própria sociedade e o país.Será que o governo se considera no direito de intervir na gestão de empresas privadas? A Embraer tem o governo entre seus acionistas (numa posição minoritária) o que, aliás, tem sido muito bom, para o governo, em termos financeiros.A Embraer também tem financiamentos do BNDES, em operações que o banco estatal sempre considerou boas e rentáveis. Trata-se de financiar a expansão e as exportações de uma companhia de ponta. É bom para a economia nacional, gera renda e empregos. Isso também não dá ao BNDES o direito de intervir na gestão da empresa, desde que ela esteja cumprindo seus contratos com o banco, como está.Mas a reação do presidente Lula diz o contrário. Tanto que os sindicatos, obviamente, foram pedir ao presidente do BNDES, Luciano Coutinho, que ele vete formalmente as demissões. Como não há base legal para isso, resta a pressão política, inclusive sobre a Justiça do Trabalho.Esse ambiente todo gera duas consequências, ambas ruins.A primeira é que sinaliza e aumenta o risco de se investir no Brasil.Suponha que a empresa fosse, de algum modo, obrigada a manter os empregos e, com isso, sem vendas, passasse a acumular prejuízos. Quem pagaria?O que leva à segunda consequência possível: o balcão de favores. Ok, diria a diretoria, operamos no vermelho, mas em troca o governo poderia facilitar isto ou aquilo.Tudo considerado e, não se abrindo esse tipo de balcão, a Embraer vai manter as demissões pela simples razão de que não tem o que produzir com esse pessoal. Toda a ação do governo terá apenas criado um ambiente negativo, sem salvar os empregos.O que poderia ser feito, de concreto, para o problema do desemprego causado pela crise?Primeiro, de imediato, ampliar para todos os benefícios do seguro-desemprego. O que fez o governo? Anunciou que fará isso, mas apenas para determinados setores.O argumento oficial diz que tal medida só faz sentido nas áreas mais sensíveis à crise, mas a verdade é que não há dinheiro, já que o governo quer gastar recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) em outras atividades. O dinheiro do seguro-desemprego deveria ir apenas para isso.A segunda medida efetiva seria modificar a legislação de modo a ampliar o campo de negociação entre as empresas e seus trabalhadores. Advogados trabalhistas e especialistas no setor vêm dizendo, há anos, que as atuais leis que regulamentam as negociações são muito estreitas e inseguras. Para suspender contratos de trabalho ou reduzir jornadas e salários, por exemplo, a lei exige condições quase impossível de cumprir - que a empresa, por exemplo, esteja quase quebrada.As circunstâncias dessas demissões, nesse caso, são óbvias: o mercado de aeronaves despencou em todo o mundo. E, aqui entre nós, nenhuma empresa séria e competitiva demite sem razão. Mão de obra especializada e qualificada, como da Embraer, custa MUITO para formar.No sufoco, trabalhadores e empresas têm feito esses acordos ignorando algumas condições, o que pode gerar passivos trabalhistas. Nada impede, dizem especialistas, como José Pastore, que os trabalhadores ou mesmo o Ministério Público venham, no futuro, a contestar esses acordos e exigir pagamento integral de salários e atrasados. O que é um verdadeiro absurdo e demonstra o nível da insegurança jurídica vigente no pais. Por isso, muitas empresas, apesar do custo e da perda efetiva dessa mão de obra têm preferido ir direto para a demissão, sobretudo quando esperam uma crise prolongada.Na mesma linha, a ministra Dilma Rousseff – outra sumidade do presente governo - disse que a decisão da Justiça de suspender as demissões na Embraer e chamar uma audiência de conciliação dá à empresa uma oportunidade de negociar de maneira "mais humana". Disse ainda que a companhia deveria ter sido mais humana desde o início, já que foram "questões internacionais, e não nacionais, que a levaram a demitir".Vejam o absurdo da declaração (que mostra, bem, o nível desse governo). Mais uma vez, aparece a obsessão de culpar alguém, além de algo muito estranho: quer dizer que, se as causas fossem nacionais, a empresa não precisaria ser mais humana?Da "conciliação" da Justiça do Trabalho pode resultar o quê? Alguns benefícios adicionais aos demitidos? Mas não os empregos, que poderiam ser salvos, ao menos em parte, se as leis trabalhistas fossem mais realistas, beneficiando empregados, empresa e o próprio país.


O artigo original é do jornalista Carlos Alberto Sardenberg. Está significativamente modificado pelo Freeman.

POESIAS DE SARAMAR NO SITE :http://abrindojanelas.blogspot.com/

NOITE


Sonho
e a noite se abre,
arca de milagres
e coloridos filmes
de bailarinas.


Sonho
e o amor se apresenta,
arca de milagres
e a flor da pele tingida de anseios,
arrepia-se.


Sonho
e sei que voltas
toda noite...


Imagem: Eugene Carriere

Postado por Saramar às 14:38, EM 30/03/09.

SUBITO

Nem posso dizer que fui feliz

Não houve tempo para nada

enleada de suas palavras

envolta em desejos e sonho.



Nosso amor foi revoada

de pássaros em migração

ou miragem desses meus

sentidos cansados de tanta solidão?

Não houve tempo para nada

nem sei que músicas embalam

seu sono sem mim.

Nem sei se sonha ou se passa a noite

em claro, como tateio a madrugada

de saudade em saudade.

Inesperado, veio e se foi, súbito.



Pouco conheci de suas mãos

senão o fogo onde ardo, deixado

assim como nada, em meus vãos.

Pouco entendi dos silêncios seus

e, das palavras todas que me disse,

apenas uma ouço agora: Adeus!


Imagem: Bouguereau



Postado por Saramar às 00:32, EM 08/03/09.

ESPERA

O amor espera em silêncio.

Além e antes,

a flor de todos os espinho

saber-se a cada sol

ainda que o dia,

sob plúvios,

pareça lamentar minhas feridas.

Presa a alma nestes lamentos,

creio, entretanto,

em outras cores

e nos eflúvios novos

de outra primavera.

Sei do céu, dos seus caminhos azuis

onde já passei um tempo

que era todos os tempos.

Por isso, creio enquanto......

o amor espera.

Silêncio!

Postado por Saramar às 11:07, em 13/03/09.

O CARÁTER NACIONAL - SITE EM OUTRAS PALAVRAS.


Lembram-se do recente episódio da advogada Paula Oliveira, que mentiu às autoridades suíças sobre um suposto ataque que teria sofrido de neonazistas?Bem, não sei em você, mas em mim provocou um profundo mal-estar. Como agora se sabe, não só o ataque não ocorreu, como também ela não sofreu o alegado aborto de dois bebês. Simplesmente não estava grávida.Por que o mal-estar diante do fato? Primeiro, porque ele reforça a impressão de que nós brasileiros não somos confiáveis. E, mais importante, porque o preconceito talvez não seja de todo destituído de fundamento.É certo e óbvio que não somos todos mentirosos. E também não é correto fazer generalização sobre o "caráter" de um povo. Mas quem de nós brasileiros, com algum grau de consciência e noção de ética, há de negar que uma malandra propensão a driblar a verdade, embrulhá-la em artifícios retóricos ou escondê-la nas dobras de histórias mal contadas é um traço do modo de ser deste país? Não raro socialmente valorizado como esperteza, "manha" ou “jeitinho brasileiro”.Não há no Brasil, a começar pelo exemplo cotidiano dos governantes e das autoridades do Estado, o respeito às regras de conduta, às leis estabelecidas, e ao certo e o errado.Nessa matéria, a nossa marca tem sido a ambigüidade. Na esfera pessoal e privada, a ambigüidade pode ser útil para evitar conflitos ou deixar certo espaço para adaptação de regras e práticas a circunstâncias e contextos variáveis. É tênue, porém, a fronteira entre a ambigüidade inofensiva e a dissimulação deletéria - pela omissão, negação ou distorção dos fatos - a serviço da transgressão, do embuste ou da fraude.O traço "cultural" da ambigüidade, em suas modalidades mais e menos benignas, reflete estratégias de sobrevivência e dominação que vêm de longe. Entre nós, difundiu-se essa prática como um estratagema recorrente para driblar, por bons ou maus motivos, os obstáculos num, muitas vezes kafkiano, universo das obrigações burocráticas. Via de regra as impostas pelo Estado.Aliás, não é se não pela excessiva interferencia e pelo “peso” do Estado nas costas da sociedade, que essa má conduta difundiu-se e, fez crescer, de forma endêmica, a corrupção no Brasil. Não há a menor duvida que o Estado e seus agentes são os grandes incentivadores e corruptores da Nação. Criam dificuldades de toda a ordem à vida dos cidadãos para em seguida, venderem facilidades... E o fazem como forma de manter “no cabresto” toda a sociedade, que, dessa forma, depende dos “favores” dos políticos e dos burocratas para quase todas as atividades. Do último subalterno das prefeituras, aos titulares das instituições federais.Se as exigencias burocraticas fossem menores, se os impostos fossem menos escorchantes, pouco disso subsistiria.Visto em conjunto, esse panorama revela a escassa experiência histórica dos brasileiros com o que no mundo anglo-saxão se chama "rule of law", o império da lei. Não apenas o conjunto de leis, mas a sua aplicação isonômica, eficiente, à todos os cidadãos. Nada mais essencial ao ideal democrático.Os anglo-saxões não mentem menos na esfera pública porque são congenitamente mais virtuosos, mas sim porque aprenderam que a mentira ou a omissão tem custos que podem trazer grandes desvantagens, diante de um sistema legal que opera com um razoável grau de equidade e eficiência. Além disso, via de regra, há um bom exemplo das autoridades constituidas.Em nenhuma outra área da vida brasileira a mentira ganhou tantas pernas e o embuste tantas formas quanto na política, sobretudo na ampla zona de interseção em que ela se encontra e se mistura com os negócios públicos e privados. Não sejamos ingênuos: em nenhum lugar do mundo os ideais da "transparência na política" e da separação entre a política e os negócios se concretizaram plenamente. E em nenhum lugar os protagonistas falam com absoluta sinceridade sobre como o jogo é jogado, mesmo diante das evidências mais claras. Mas convenhamos que no Brasil o desapego à verdade dos fatos chegou a extremos.Os partidos políticos tornaram-se o emblema dessa enfermidade, e a contribuir ativamente para propagá-la. O discurso não apenas perdeu substância, como se tornou, na média, espantosamente cínico. E para manterem o “status quo” esmeram-se em proteger um sistema eleitoral viciado, deturpado e de uma representatividade duvidosa...O que precisamos fazer para amenizarmos, pelo menos, os efeitos públicos desse “caráter nacional”?Criar filtros que possam minimamente separar o joio do trigo e, democraticamente, depurar a vida política do País. Para tanto, reformas e ajustes institucionais são absolutamente necessários. Mas elas só se farão, infelizmente, pela pressão da sociedade, e não pelo virtuosismo dos políticos...E é preciso acharmos um meio das instituições atuais serem céleres e capazes de condenar, com eficácia, os que roubam dinheiro público e praticam outros atos lesivos a sociedade, ou será muito difícil reverter, democraticamente, a tendência acentuada de degeneração da vida pública, no Brasil. E como sabemos, a depuração dos costumes políticos por via não democrática, via de regra, leva ao arbítrio, e não à solução dos problemas que diz atacar.


O artigo original é de Sérgio Fausto, coordenador de Estudos e Debates do iFHC, está significativamente alterado pelo Freeman.