quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

CERTAS CONSTRUÇÕES- PAULO COELHO NA COLUNA TODAS,NO G1.


Reparem como certas palavras foram construídas para nos mostrar claramente o que querem dizer, embora nem sempre aprendamos o que elas nos ensinam.


Tomemos, por exemplo, a palavra “preocupação”, e dividimos em duas: pre-ocupação. Significa ocupar-se de uma coisa antes que ela aconteça. Quem, em todo este Universo, pode ter o dom de ocupar-se de uma coisa que ainda não aconteceu?

Portanto, nunca se preocupe. Esteja atento ao seu destino e ao seu caminho. Aprenda tudo que precisa aprender para manejar bem a espada da luz que lhe foi confiada. Repare como lutam os amigos, os mestres, e os inimigos.


Treine bastante, mas não cometa o pior dos erros: acreditar que sabe qual o golpe que o adversário vai aplicar.

A vida é o inesperado. Um guerreiro da luz nunca se preocupa. Ele conhece o manejo da espada, mas não gasta seu tempo e sua energia lutando contra a própria imaginação.

NADA DETEM ESSE HOMEM - PAULO COELHO NA COLUNA TODAS, NO G1.


Aos cinco anos de idade, Glenn Cunninghan sofreu sérias queimaduras nas pernas e os médicos não tinham esperanças de sua recuperação. Todos achavam que ele estava condenado a passar o resto da vida na cadeira de rodas.
- Nunca mais vai andar - diziam. - Não há a menor chance.
Glenn Cunningham não deu ouvidos aos doutores e prometeu a si mesmo que voltaria a andar. Preso ao leito, com as pernas finas cobertas de marcas vermelhas, Glenn jurou:
- Semana que vem vou sair da cama! E foi o que ele fez.
Sua mãe conta que chegava à janela e via as tentativas de Glenn. Apoiado num velho arado no quintal, ele punha as pernas deformadas para funcionar. A cada passo, a cada dor, recomeçou mais decidido.
- Sempre acreditei que conseguiria andar. Logo estava andando depressa e começando a correr. Os médicos viam as minhas pernas, mas não o meu coração. Agora vou correr mais rápido que qualquer pessoa.
E o foi o que fez.
Tornou-se um grande corredor. Em 1934, bateu o recorde mundial e foi homenageado como atleta do século no Madison Square Garden.

FINALMENTE CHEGOU!!!


Finalmente 2009 começou! Por que tanta ansiedade? Porque 2009 é o Ano Internacional da Astronomia. Ele é especial, pois marca os 400 anos de descobrimento das luas galileanas de Júpiter por Galileu Galilei (por isso são chamadas de “galileanas”).
Há quatro séculos, Galileu apontou sua pequena luneta para céu e começou a descobrir um universo totalmente novo: descobriu luas em Júpiter (descrevendo-as como um minissistema solar), observou as crateras da Lua, descobriu as fases de Vênus, observou as manchas solares (e praticamente ficou cego por isso, não tente fazer igual!) e várias outras observações que levaram-no a postular que não é o Sol que se move em torno da Terra, mas sim o contrário. Existe alguma controvérsia em relação à descoberta das luas galileanas; já ouvi por aí que elas foram observadas antes, mas a história guardou as anotações de Galileu de modo que para a história foi ele o descobridor.
Dizem também que Galileu foi o inventor do telescópio, mas sabe-se que isso não é verdade. Ele ouviu falar que na Holanda havia instrumentos desse tipo e comprou algumas lentes para fabricar a sua própria luneta. A partir daí passou a fabricá-las, sempre aperfeiçoando-as, de modo que rapidamente Galileu possuía os mais avançados instrumentos do mundo.
Galileu foi também o inventor do método científico, usado em larga escala na ciência. É por conta dele que podemos ter confiança em teorias que expliquem os fenômenos da natureza, desde o átomo até as galáxias, com as hipóteses por trás delas testadas à exaustão. Mas não é disso que eu quero falar agora.
Para celebrar esses acontecimentos, 2009 foi declarado pela ONU como o Ano Internacional da Astronomia. A idéia é usar os 400 anos das descobertas de Galileu para despertar ou impulsionar o gosto pelas ciências, seja ela qual você gostar mais. E tudo será descentralizado!
O esquema proposto desde o final de 2007 é montar uma rede mundial de associações, clubes de astronomia, universidades, escolas e qualquer grupo interessado em divulgar a astronomia. Essas entidades são chamadas de “nós” de desta grande rede. Há uma coordenação mundial que passa as diretrizes para as coordenações nacionais, que por sua vez as repassam para esses nós. Tudo através da internet, de maneira totalmente democrática.
Os trabalhos de divulgação ficam a cargo e critério dos nós cadastrados, pode ser através de palestras, observações, filmes, o que for. Existem atividades mundiais, como as 100 horas de astronomia, por exemplo. Essa atividade prevê uma maratona de 100 horas ininterruptas de observação do céu pelo mundo todo, com transmissão ao vivo por diversos grandes observatórios do mundo.
Outro projeto bem legal é o chamado “Galileuscópio”. Esse projeto visa a construção de lunetas simples e de fácil montagem que lembrem aquelas usadas por Galileu há quatro séculos. Isso ficaria a cargo dos nós locais e a meta é fazer com que 10 milhões de pessoas no mundo todo observem o céu através de um telescópio pela primeira vez.
Como eu disse, todo o evento pretende ser aberto e democrático. A página doAno Internacional da Astronomia no Brasil (
http://www.astronomia2009.org.br) éonde você pode saber da programação pelo Brasil afora, mas também pode cadastrar o seu clube de astronomia como um nó local.
Aqui em São José dos Campos-SP, vamos começar oficialmente este ano magnífico no próximo dia 15 (veja a programação na página acima) e pretendemos juntar três instituições com ampla tradição na divulgação de astronomia. Eu mesmo devo coordenar uma das principais atividades e se você estiver na região do Vale do Paraíba ou Litoral Norte, fique atento à programação.
Procure o seu nó local e feliz Ano Internacional da Astronomia!

DO RITMO DA ORAÇÃO.


Reze todos os dias. Mesmo sem palavras, sem pedidos, sem entender porque, faça da oração um hábito. Se no começo for difícil, proponha a você mesmo: “vou rezar todos os dias desta próxima semana”.

Lembre-se que, você não só está criando um laço mais íntimo com o mundo espiritual; também treinando a sua vontade. É através de certas repetições que desenvolvemos a disciplina necessária para o verdadeiro combate da vida.

Sabemos que não adianta esquecer a promessa, e no dia seguinte rezar duas vezes. Tampouco adianta rezar sete orações num mesmo dia, e passar o resto da semana achando que cumprimos a tarefa.
Certas coisas precisam acontecer na medida e no ritmo certos.

(Post publicado na coluna TODAS, no G1, por PAULO COELHO)

VINTE ANOS DEPOIS: DIANTE DO LAGO BAIKAL II... PAULO COELHO/ENCONTROS NO CAMINHO.


Vejo a água correndo, já são cinco horas da tarde. Acompanho o pequeno riacho, até ele encontrar-se com um dos lugares mais bonitos da terra: o lago Baikal, na Sibéria. “Um rio nunca passa duas vezes pelo mesmo lugar” diz um filósofo. “A vida é como um rio”, diz outro filósofo, e chegamos a conclusão que esta é a metáfora mais próxima do significado da vida.

Mas hoje acabo de descobrir algo diferente: existe um rio dentro do rio; é ele que mostra o caminho a seguir, é a alma das águas que estão ao meu lado, nesta pequena aldeia onde ainda podemos ver um poço, e os habitantes que chegam até o lugar para pegar água. Há quanto tempo não vejo um poço de verdade, que dá de beber a todo um vilarejo?
Contemplo de novo o rio, procuro ser como ele, e vejo as lições que está me ensinando agora:

A] Sempre estamos diante da primeira vez. Enquanto nos movimentamos entre a nossa nascente (o nascimento) ao nosso destino (morte), as paisagens serão sempre novas. Devemos encarar todas estas novidades com alegria, e não com medo – porque é inútil temer o que não se pode evitar. Um rio não deixa de correr jamais.

B] Em um vale, andamos mais devagar. Quando tudo à nossa volta fica mais fácil, as águas se acalmam, nos tornamos mais amplos, mais largos, mais generosos.

C] Nossas margens sempre são férteis. A vegetação só nasce onde existe água. Quem entra em contato conosco, precisa entender que estamos ali para dar de beber a quem tem sede.

D] As pedras precisam ser contornadas. Evidente que a água é mais forte que o granito, mas para isso é preciso tempo. Não adianta deixar-se dominar por obstáculos mais fortes, ou tentar bater-se contra eles; gastaremos energia a toa. O melhor é entender por onde se encontra a saída, e seguir adiante.

E] As depressões necessitam paciência. De repente o rio entra em uma espécie de buraco, e pára de correr com a alegria de antes. Nestes momentos, a única maneira de sair é contar com a ajuda do tempo. Quando chegar o momento certo, a depressão se enche, e a água pode seguir adiante. No lugar do buraco feio e sem vida, agora existe um lago que outros podem contemplar com alegria.

F] Somos únicos. Nascemos em um lugar que estava destinado para nós, que nos manterá sempre alimentados de água o suficiente para que, diante de obstáculos ou depressões, possamos ter a paciência ou a força necessárias para seguir adiante. Começamos nosso curso de maneira suave, frágil, onde até mesmo uma simples folha pode parar nosso curso. Entretanto, como respeitamos o mistério da fonte que nos gerou, e confiamos em sua Eterna sabedoria, aos poucos vamos ganhando tudo que nos é necessário para percorrer nosso caminho.

G] Embora sejamos únicos, em breve seremos muitos. A medida que caminhamos, as águas de outras nascentes se aproximam, porque aquele é o melhor caminho a seguir. Então já não somos apenas um, mas muitos – e há um momento em que nos sentimos perdidos. Entretanto, como diz a Bíblia, “todos os rios correm para o mar”. É impossível permanecer em nossa solidão, por mais romântica que ela possa parecer. Quando aceitamos o inevitável encontro com outras nascentes, terminamos por entender que isso nos faz muito mais fortes, contornamos os obstáculos ou preenchemos as depressões em muito menos tempo, e com muito mais facilidade.

H] Somos um meio de transporte. De folhas, de barcos, de idéias. Que nossas águas sejam sempre generosas, que possamos sempre levar adiante todas as coisas ou pessoas que precisarem de nossa ajuda.

I] Somos uma fonte de inspiração. E portanto, deixemos para um poeta brasileiro, Manuel Bandeira, as palavras finais:
“Ser como um rio que fluiSilencioso no meio da noiteNão temer as trevas da noiteSe há estrelas no céu, refleti-las.E se o céu se enche de nuvensComo o rio, as nuvens são água;Refleti-las também sem mágoaNas profundidades tranqüilas.”
*****

VINTE ANOS DEPOIS: NO LAGO BAIKAL... PAULO COELHO/ENCONTROS NO CAMINHO.



A frase é de Pablo Picasso: “Deus é, sobretudo, um artista. Ele inventou a girafa, o elefante, a formiga. Na verdade, Ele nunca procurou seguir um estilo – simplesmente foi fazendo tudo aquilo que tinha vontade de fazer”.

Nossa vontade de andar que cria nosso caminho – entretanto, quando começamos a jornada em direção ao sonho, sentimos muito medo, como se fôssemos obrigados a fazer tudo certinho.
Afinal, se vivemos vidas diferentes, quem foi que inventou o padrão do “tudo certinho?”
Se Deus fez a girafa, o elefante e a formiga, e nós procuramos viver à Sua imagem e semelhança, por que temos que seguir um modelo? O modelo às vezes nos serve para evitar repetir erros estúpidos que outros já cometeram, mas normalmente é uma prisão que nos obriga a repetir sempre aquilo que todos fazem.

Ser coerente é precisar usar sempre a gravata combinando com a meia. É ser obrigado a manter, amanhã, as mesmas opiniões que você tinha hoje. E o movimento do mundo – onde fica?
Desde que não prejudique ninguém, mude de opinião de vez em quando, e caia em contradição sem se envergonhar disso. Você tem este direito; não importa o que os outros vão pensar – porque eles vão pensar de qualquer maneira.
Quando decidimos agir, alguns excessos acontecem. Diz um velho ditado culinário: “para fazer uma omelete é preciso, primeiro, quebrar o ovo”. Também é natural que surjam conflitos inesperados.
É natural que surjam feridas no decorrer destes conflitos. As feridas passam: permanecem apenas as cicatrizes.
Isto é uma bênção. Estas cicatrizes ficam conosco o resto da vida, e vão nos ajudar muito. Se em algum momento - por comodismo ou qualquer outra razão – a vontade de voltar ao passado for grande, basta olhar para elas.
As cicatrizes vão nos mostrar a marca das algemas, vão nos lembrar os horrores da prisão – e continuaremos caminhando para frente.
Por isso, relaxe. Deixe o Universo se movimentar a sua volta, e descubra a alegria de ser uma surpresa para você mesmo. “Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios”, diz São Paulo.
Um Guerreiro da Luz nota que certos momentos se repetem; com freqüência ele se vê diante dos mesmos problemas, e enfrenta situações que já havia enfrentado anteriormente.
Então fica deprimido. Começa a achar que é incapaz de progredir na vida, já que as mesmas coisas que viveu do passado estão acontecendo de novo.
“Já passei por isso”, ele reclama com seu coração. “Realmente, você já passou”, responde o coração. “Mas nunca ultrapassou”.
O Guerreiro então passa a ter consciência que as experiências repetidas tem uma finalidade; ensinar-lhe o que ainda não aprendeu. Ele dá sempre uma solução diferente para cada luta repetida – e não considera suas falhas como erros, mas como passos em direção ao encontro consigo mesmo.

Frases sobre erros

Se me enganas uma vez, a culpa é tua. Se me enganas duas vezes, a culpa é minha (Anaxágoras)
Se pudesse viver de novo a minha vida, cometeria os mesmos erros – só que muito mais cedo (Tallulah Bankhead)
O caminho para o sucesso é dobrar a taxa de erros (Thomas Watson)
Enquanto não tiveres conhecido o Inferno, o Paraíso não será bastante bom para ti (provérbio curdo)
Errar é humano, mas faz você sentir-se divino! (Mae West)
Fazer o que está certo não é o problema; o problema é saber o que está certo (Lyndon Johnson)
Nem tudo que dá certo é certo (David Capistrano)
Prefiro um erro que me divirta, a um acerto que me entristeça (William Shakespeare)

Próximo texto: 07.06.06
P.S: Estimado leitor,
Durante esta caminhada, que está enchendo minha alma de experiências interessantíssimas, um dos momentos mais mágicos é quando chega a noite e posso ler os comentários no blog. Embora não tenha como responder a todos, saibam que é muitíssimo importante para mim entender que não estou só neste caminho. Muito obrigado pelo apoio e pelas palavras e idéias que estão sendo gravadas em meu coração.
Paulo Coelho

O SENTIDO DO CAMINHO- ENCONTROS NO CAMINHO... PAULO COELHO


Em uma de minhas primeiras paradas nesta peregrinação, passei por um vilarejo na Espanha. Ali escrevi o texto abaixo. Penso que, não importa de onde viemos, sempre podemos chegar muito mais longe do que imaginamos. Esse é o exemplo que Francisco nos deu, e que devemos seguir.
Dedico este caminho a meus leitores. Muito obrigado pelo apoio de todos, pelas noites que passei lendo as mensagens aqui colocadas, e que me estimulavam sempre a seguir adiante. O sentido do caminho está nas pessoas, e sempre olhamos melhor o mundo quando permitimos que o mistério dos encontros se manifestem. Como diz a última frase de O Diário de um mago : “as pessoas sempre aparecem quando estão sendo esperadas.”
Paulo Coelho

Vinte anos depois: Francisco

Tomo café no terraço do hotel que dá vista para um castelo, um gigantesco castelo neste pequeno vilarejo com apenas algumas casas, na província de Navarra, Espanha. Já é noite, não há lua, estou refazendo de carro minha peregrinação a Santiago de Compostela, para comemorar os vinte anos quando cruzei este caminho à primeira vez.

O vilarejo onde estou, porém, não faz parte do percurso, que passa a uns 19 kms daqui. Mas pretendia visitá-lo, e aqui estou. Há quinhentos anos nasceu neste lugar um homem chamado Francisco. Deve ter brincado muito nos campos em volta do castelo. Deve ter banhado-se no rio que corre por perto. Filho de pais ricos, deixou sua aldeia para completar seus estudos na famosa Universidade Sorbonne, de Paris. Deduzo que foi sua primeira longa viagem.

Era atlético, bonito, inteligente, invejado por todos os alunos – menos por um, vindo da mesma e distante província espanhola, que se chamava Inácio. Inácio dizia: “Francisco, você pensa muito em você. Por que não dedicar-se a pensar em outras coisas, como Deus, por exemplo?” Não sabemos porque, mas Francisco, o mais belo e mais valente estudante da Sorbonne, deixa-se convencer por Inácio. Juntam-se com outros alunos, e fundam uma sociedade, que é motivo de risos de todos os outros, a ponto de alguém escrever na porta da sala onde se reuniam: Sociedade de Jesus. Ao invés de ficarem ofendidos, adotam o nome. E a partir daí, Francisco começa uma viagem sem volta.

Vai com Inácio a Roma, e pede que o Papa reconheça a “sociedade”. O pontífice aceita encontrar-se com os estudantes, e para estimulá-los, dá o seu acordo. Francisco – que morria de medo de navios e de mar – parte sozinho para o Oriente, imbuído do que considera sua missão. Nos próximos dez anos visitará a África, a Índia, Sumatra, Molucas, Japão. Aprenderá novas línguas, visitará hospitais, prisões, cidades e vilarejos. Escreverá muitas cartas, mas nenhuma – absolutamente nenhuma – fará referências a pontos “turísticos” destes lugares.


Comenta apenas a necessidade de levar uma palavra de coragem e esperança aos que são menos favorecidos.
Morre longe do vilarejo onde estou agora tomando meu café – e é enterrado em Goa. Em uma época em que o mundo era imenso, as distâncias quase insuperáveis, os povos viviam em guerra, Francisco achou que devia considerá-lo como uma aldeia global. Supera seus medos porque está consciente que sua vida tem um sentido.


Não sabe, enquanto caminha pelo Oriente, que seus passos jamais serão esquecidos, e que tudo que plantou dará frutos; está fazendo isso porque é sua lenda pessoal, a maneira que escolheu de viver sua vida.
Quinhentos anos depois, na cidade de Ahmedabad, na Índia, um professor pede a seus alunos uma biografia sobre ele. Um dos meninos escreve: “foi um grande arquiteto, porque em todo o Oriente existem escolas que construiu e que levam seu nome.”

Antonio Falces, que dirige um destes colégios, conta que viu duas pessoas conversando:
- Francisco era português – diz uma.
- Claro que não. Nasceu e foi enterrado aqui em Goa, responde a outra.

Ambas estão erradas, e ambas tinham razão: Francisco veio de um pequeno povoado de Navarra, mas era um homem do mundo, e todos os consideravam parte de sua própria gente. Tampouco era arquiteto especializado em construir escolas; mas como diz um de seus primeiros biógrafos, “era como o sol, que não pode seguir adiante sem espalhar luz e calor por onde passa”.

Penso em Francisco: sair daqui, correr o mundo, fazer com que o nome deste pequeno vilarejo seja levado a tantos lugares, a ponto de muita gente achar que é o seu sobrenome. Enfrentar seus medos, renunciar a tudo em nome de seus sonhos – que isso me inspire e me sirva de exemplo; eu que estudei em um dos colégios da tal “sociedade de Jesus”, ou S.J., ou escolas jesuítas, como são conhecidas.

Estou no povoado de Xavier. Tanto Francisco como Inácio, que veio de outro pequeno povoado, chamado Loyola, foram canonizados no mesmo dia, 12 de Março de 1622. Naquela manhã, colocaram uma faixa em um dos muros do Vaticano:

“São Francisco Xavier fez muitos milagres. Mas o milagre de Santo Inácio é ainda maior: Francisco Xavier.”